Cegueira

Na rua, voltando para casa, ouvi algo que me chamou a atenção: alguém, no interior de uma residência, tocava com maestria um violino. Não sei quem era, mas sua alma estava ali, explícita. Minha visão, por um instante, ficou distorcida. Não consegui segurar as lágrimas. Não vi quem tocava, mas ouvi sua alma. Segui meu caminho pensando: que bom seria se eu buscasse mais ouvir que ver. Talvez, assim, eu fosse menos cego.

Abner

Imagem: O Violinista Azul – Marc Chagall

Poema

Ao criar o mundo, Deus ficou tão inspirado que resolveu escrever. Como ainda não existia papel, colocou toda sua poesia no homem. As quedas me rasuraram, mas, ainda assim, continuo sendo poema de um poeta apaixonado.

Abner

Mulher

E nós, homens, quando somos egoístas e fixamos nossa atenção no umbigo, deveríamos lembrar que ele, um dia, nos ligou à uma mulher. Todo dia é dia. Pena que temos memória fraca e precisamos fixar uma data para recordarmos.

Abner

Disfarce

O interesse foi convidado para uma festa. Vestiu-se de amizade e partiu, acreditando estar trajando o disfarce perfeito. Na entrada, dois recepcionistas sorriam para os convidados. Chamavam-se Tempo e Verdade. Ele, sabendo que seria reconhecido, retornou.
Dispense seus interesses. Então, saberá o QUE ama ou QUEM ama.

Abner

Processo

Ontem, enquanto eu treinava, fiquei pensando sobre algumas coisas.
Quem pratica esportes sabe que todo início é doloroso, e, com o tempo, isso acaba se revertendo em benefícios ao corpo. Assim acontece em nosso interior. Se enxergássemos a dor como um processo de mudança, talvez ela não nos assustasse tanto.

Abner

Extremos

Encontrei a distância. Dialogamos por horas. Eu disse que me sentia pequeno diante dela. Sorrindo, ela respondeu: “Sou a união de extremos. Quando meu tamanho parecer ser maior que seu amor, olhe para cima. A outra ponta está debaixo do mesmo céu.”

Abner

Onde estão os vagalumes?

Já reparou que o céu, fora dos grandes centros urbanos, é diferente?
Dia desses, eu estive em um sítio com alguns amigos. A distância, entre a rodovia e a casa que estávamos, era pequena, mas, suficiente para causar curiosas impressões durante seu percurso a noite.
Já havíamos percorrido metade do caminho, quando alguém teve a idéia de apagar os faróis do carro, permitindo assim que a escuridão envolvesse todos que ali estavam. Confesso que até os meus olhos se acostumarem com a ausência de luz, fiquei com um pouco de medo.
Aos poucos comecei a enxergar os que estavam comigo, e logo o término da estrada já estava totalmente visível. Foi quando me disseram – Abra a janela e olhe para cima – Sem dúvida, vivi ali uma das maiores emoções da minha vida. O céu estava todo pontilhado, incrivelmente pontilhado. Eu nunca tinha visto tanta estrela junta. Parecia uma toalha de renda, entendida de ponta cabeça. Esfreguei os olhos para ter certeza de que não era alucinação, quando vi algumas delas fazendo acrobacias. Não eram estrelas. Os vagalumes também costuravam sua beleza na noite. Jamais esquecerei o que vi naquela ocasião.
Ontem, olhando pela janela do meu quarto, observei as poucas estrelas que estavam expostas, e pensei – Onde guardaram a toalha? Onde estão os vagalumes? Se estou debaixo do mesmo céu, onde estão eles? – O silêncio gritou.
Não gosto muito do escuro pleno, mas penso que é estando nele que consigo enxergar as pequenas luzes, que, por vezes são ofuscadas pelas grandes que costumo acender. A escuridão me é insegura, assim como minha dor, mas, só estando nela consigo ver o que realmente é essencial. Quando a noite for escura demais, procure os vagalumes, e a toalha pontilhada. Eles darão novo sentido ao incerto.

Ouvi dizer que amigos são como estrelas. Devem ser mesmo.

Abner

O céu nas coisas


Falaram-me sobre as coisas do céu. Não há dúvidas de que Deus as deixou ao nosso alcance, e às vezes são tão expostas que tornam-se óbvias. Penso que o desafio surge quando a inversão chega, os paradigmas se vão, e o céu começa a se esconder nas coisas.
Já reparou que nosso vocabulário muda quando estamos magoados? – Às vezes pessoas, lembranças, e histórias, tornam-se coisas diante da dor, decepção, e frustração. Isso ocorre diariamente dentro de nós e é uma forma, até esquisita, que temos de amenizar o que nos fere.
Buscar as coisas do céu requer decisão. Encontrar o céu nas coisas EXIGE, no mínimo, esforço. Costumo dizer que é fácil contemplar Deus em sua obra. O problema é quando essa obra anda e fala.

Olhe para dentro, veja tudo o que sua dor transformou em coisas, e busque o céu que se escondeu nelas.

O perdão é um ótimo colírio.

Abner

Quando sou verdade para mim, abro possibilidade de ser para o outro.

Amor no barbante


Hoje passei em uma rua que estava toda enfeitada para festa julina. Isso me fez lembrar um cantinho da minha história.
Quem me conhece sabe que toda minha família é evangélica.

Era uma noite típica de junho, lá fora o vento fazia seu concerto, envolvendo toda a platéia com o frio. Lembro-me que os instrumentos que mais se destacavam eram uma árvore velha, e o portão de madeira, tão velho quanto a árvore, e que dava acesso aos fundos de casa.
Na rua a vizinhança finalizava a decoração de uma festa junina. Durante toda a tarde acompanhei tudo do portão. Parece que eu tinha a exata noção de quantos galhos haviam naquela fogueira, e quantas bandeirinhas estavam penduradas. Naquela época, as festas juninas eram muito mais religiosas, isso significava procissão, terço, e outras devoções.
Eu tinha 8 anos, e minha mãe já havia avisado, com muita antecedência, que não participaríamos da festa porque era uma celebração religiosa e de cunho católico. Fiquei muito triste, confesso que até irritado. Fui até a cozinha e disparei, rispidamente, várias palavras contra a minha mãe. No fundo, queria convencê-la a me deixar participar da festa.
Por fim, “convencido” por uma força maior, que chamo de obediência, fomos à igreja, eu, minha irmã, e meu pai. Minha mãe ficou em casa, disse que tinha muito a fazer.
No retorno para casa, eu estava inquieto, acho que nunca desejei tanto rever minha rua como naquela noite. Ainda tinha um pouco de esperança, afinal, havia sido um menino obediente e ido à igreja, rs.
Quando entramos na rua, estava tudo diferente. A fogueira tinha virado brasa, algumas bandeiras estavam no chão, e o vazio fazia dueto com o vento. Eu não tinha idéia de que lá dentro de casa, um dos presentes mais belos que já recebi, me aguardava.
O cheiro de bolo foi nos receber no portão. A porta se abriu e descobrimos que minha mãe, realmente, teve muitos afazeres. Ela tinha feito, sozinha, a “nossa” festinha. As bandeirinhas eram improvisadas. Jornais e revistas esculpidos, estavam todos pendurados num barbante. Um bule de leite com chocolate, um prato com pé de moleque, paçoca, e jujubas, se juntaram ao bolo de fubá que tinha acabado de sair do forno. Tudo estava pronto. Impossível conter minhas lágrimas ao escrever isso.
O que se destaca nesse fato não é o menino birrento, a festa da rua, ou mesmo os credos distintos, mas sim o coração de uma mulher. O amor simples constrange e cativa.
Hoje, que posso fazer tudo o que quero, sinto falta dos limites que, na maioria das vezes, distinguia o que realmente possuia valor.
O bom de abrir os olhos todos os dias é saber que ainda posso redescobrir as pessoas.

Ser contrariado pode ser um apaixonante exercício ocular.

Abner